A MESA, O CORAÇÃO E O PRÓXIMO: Quando a comunhão com Cristo transforma a maneira como acolhemos as pessoas.
João 15:1-2,17: "EU sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. … Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros."
João, capítulo 15, nos apresenta dois tipos de ramos: o que não dá fruto e o que dá fruto (João 15:2). Perceba que os dois estão na videira e ambos recebem nutrientes para que venham florescer e frutificar. Mas a pergunta que ressoa altissonantemente nesse texto é: se os ramos estão na videira, por que um dá fruto e o outro não? A resposta está no próprio texto: porque só dá fruto quem permanece. (João 15:4-5)
Perceba que, no último versículo da nossa leitura, no verso dezessete, Jesus dá uma ordem expressa aos seus discípulos e também a nós. Ele disse: "Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros" (João 15:17).
Mas existe algo que precisamos observar: nenhuma ordem de Jesus é absurda, porque, se Ele dá uma ordem para que a cumpramos, não espera que façamos isso sozinhos, mas Ele mesmo provê o sustento, a ajuda, o amparo e a força necessária por meio do seu precioso Espírito Santo para que assim obedeçamos (João 14:16-17,26; João 15:26), porque, tal qual o ramo que dá fruto porque está ligado à videira, de igual modo somos nós, porque estamos ligados a Ele (João 15:4-5; Gálatas 5:22-23).
Em outras palavras, alguém só ama porque permanece (João 15:9-10). Só perdoa porque permanece (Colossenses 3:13). Só tem misericórdia porque permanece (Lucas 6:36). Só faz o bem porque permanece (Gálatas 6:9-10). E quem permanece entende que existe uma graça tão capacitadora e fortalecedora que nos ajuda a fazer o quê sozinho jamais conseguiríamos. (2 Coríntios 12:9; Filipenses 2:13)
É preciso compreendermos uma coisa: numa árvore, é perfeitamente possível e muito comum existirem ramos cheios de frutos, plenos de vida e com folhas bonitas ao lado de ramos murchos, secos ou sem frutos. Isso se chama convivência: ramos diferentes partilhando de um mesmo lugar. (Romanos 12:4-5; 1 Coríntios 12:20-21)
Cristo é a videira; nós somos os ramos (João 15:5). E, se somos todos iguais, ainda que tenhamos resultados diferenciados, por que nos exaltamos ou nos rebaixamos? (Romanos 12:3; Filipenses 2:3). Ou, ainda, por que existem ramos que se acham mais belos e úteis em detrimento de outros que parecem feios, sem frutos e com folhas secas? (1 Coríntios 12:22-25). Não são todos ramos? Não estão todos ligados à videira? Não recebem todos os nutrientes de uma mesma raiz? (1 Coríntios 12:12-13; Efésios 4:4-6).
Não devemos nos enganar a nós mesmos. (1 Coríntios 3:18) É possível dizer que se está na videira, mas o interior está seco há tempos. (João 15:4-6) É possível nos reunirmos para a celebração deste memorial, mas estarmos com o coração cheio de altivez ou indiferença para com o irmão. (1 Coríntios 11:28-29; 1 Coríntios 11:20-22)
A pior coisa que pode haver no ambiente de uma árvore é um ramo querendo matar outro ramo. (1 João 3:15) Eles vivem lado a lado, pertencem à mesma árvore, são sustentados pela mesma raiz, mas estão sempre em disputa. (1 Coríntios 3:3-4) Quem continua fazendo a avaliação dos ramos e de seus frutos não são os próprios ramos, mas o agricultor. (João 15:1-2) É ele quem decide que ramo será podado para dar mais fruto ou será jogado fora para ser queimado. (João 15:2; João 15:6)
Falar sobre a celebração da Ceia é o mesmo que falar de inclusão (1 Coríntios 10:16-17). Inclusão é trazer para perto (Efésios 2:13). É se colocar no lugar do outro (Filipenses 2:4). É tratar nosso semelhante como gostaríamos de ser tratados (Mateus 7:12). É olhar para dentro, não para fora (Mateus 7:3-5; 1 Coríntios 11:28). É despir-se de todo tipo de julgamento (Mateus 7:1-2; Romanos 14:10-13). É exercer misericórdia. (Mateus 9:13; Tiago 2:13)
Celebrar a Ceia é entender que fomos convidados gratuitamente para um banquete em que o anfitrião está disposto a partilhar da sua comida e bebida pelo simples fato de querer nos abençoar e nos ver bem, fartos e cheios de vida, mesmo sabendo da nossa miserabilidade e de que não temos nada a oferecer (Lucas 22:19-20; Efésios 2:8-9; Romanos 5:8).
Nesta celebração, quem ganha são os convidados, e é esse tipo de amor que deve nos constranger e nos levar a uma reflexão diária (2 Coríntios 5:14-15): Jesus era Deus, mas sabia ser humano (Filipenses 2:5-8; Hebreus 4:15).
A Ceia nos convida a olhar para o lado sem julgamento, entendendo que o maior vilão a ser combatido não é o meu próximo. O maior vilão a ser combatido somos nós. (Mateus 7:3-5; Gálatas 5:16-17) Porque o melhor de nós é Jesus (João 15:5; Gálatas 2:20), mas o pior de nós é a nossa velha natureza que está sempre querendo entrar em cena para atuar no papel principal. (Romanos 7:18-25; Efésios 4:22-24; Colossenses 3:9-10).
Se verdadeiramente entendermos o espírito da ceia, evitaremos o julgamento, não colocaremos tropeços no caminho de um irmão, daremos as mãos ao invés de largá-las, e analisaremos muito mais a nossa consciência discernindo os nossos erros e pecados; porque quanto mais próximo nos parecemos com Cristo, tanto mais tempo investiremos energia para mudarmos e tirarmos a trave dos nossos olhos, não dos olhos do próximo.
Jesus, quando veio à Terra, escolheu doze homens pecadores, inconstantes, cada um com uma característica, cheios de falhas de caráter, precisando urgentemente serem tratados, limpos e sarados pelo poder redentor da graça salvadora de Jesus (Lucas 6:13-16; Romanos 3:23-24).
De acordo com o livro O Maior Líder da História, o autor detalha que Jesus escolheu intencionalmente homens com graves falhas de personalidade e conflitos emocionais para demonstrar que qualquer mente pode ser treinada e transformada. (Romanos 12:2; Efésios 4:22-24)
Os principais perfis analisados são:
• Pedro (O Impulsivo): Apresentava um perfil hiperativo, tenso, ansioso, descontrolado e intolerante. Cury destaca que ele agia por impulso antes de pensar, possuindo baixíssima tolerância à frustração e uma forte necessidade de liderança baseada no autoritarismo agressivo antes de sua transformação (Mateus 14:28-31; Mateus 16:21-23; João 18:10-11; Lucas 22:31-34).
• João (O Ambicioso e “Bipolar”): Embora conhecido posteriormente pelo amor, Cury o descreve originalmente como emocionalmente instável (“bipolar”) e extremamente ambicioso. Ele e seu irmão Tiago sofriam de uma busca obsessiva por status e poder, querendo assentar-se nos lugares de maior privilégio (Marcos 3:17; Marcos 10:35-41; Lucas 9:54-55; 1 João 4:7-8).
• Tomé (O Paranoico): Classificado como paranoico e pragmático ao extremo. Sua falha residia na desconfiança crônica, na rigidez mental e no medo de se frustrar, o que o impedia de exercer a intuição ou crer naquilo que não pudesse tocar ou comprovar logicamente (João 11:16; João 14:5; João 20:24-29).
• Mateus (O Corrupto e Rejeitado): Sendo um publicano (cobrador de impostos para o Império Romano), Mateus carregava o estigma da corrupção e do individualismo. Ele havia vendido seus valores éticos em troca de estabilidade financeira e sofria com o severo isolamento social e a autorrejeição (Mateus 9:9-13; Lucas 5:27-32; Lucas 19:1-10).
• Judas Iscariotes (O Dissimulado): Diferentemente dos outros, Judas é descrito por Cury como o mais culto, polido e aparentemente equilibrado do grupo. No entanto, sua grande falha de caráter era a falta de transparência e um “coração falso”. Ele mascarava suas frustrações, era egocêntrico, mercantilizava as relações e mantinha um diálogo interno rígido que o levou a trair o Mestre por não ter suas expectativas políticas e financeiras atendidas (João 12:4-6; Mateus 26:14-16; Mateus 26:47-50; João 13:21-30).
Em relação ao grupo completo (que inclui Tiago, André, Filipe, Bartolomeu, Simão, o Zelote, Tiago, filho de Alfeu, e Judas Tadeu), o autor aponta que as falhas coletivas se baseavam em:
1. Individualismo e Egoísmo: Disputavam frequentemente entre si para saber quem era o maior no Reino dos Céus, demonstrando falta de empatia e imaturidade emocional (Marcos 9:33-35; Marcos 10:35-45; Lucas 22:24-27).
2. Rigidez Cultural e Religiosa: Eram preconceituosos, rejeitavam estrangeiros e pessoas de fora do convívio judeu tradicional (Mateus 15:21-28; Lucas 9:51-56; João 4:9,27).
3. Analfabetismo Emocional: Diante das crises e do medo (como no momento da prisão de Jesus), o verniz social deles desapareceu, revelando covardia, fuga e o instinto de autopreservação acima de qualquer lealdade (Mateus 26:40-41, 56, 69-75; Marcos 14:50-52; João 16:32).
O que Jesus fez com os doze discípulos, tratando-os com amor e compaixão, é uma representação de como Cristo trata cada um de nós, a sua Igreja (João 13:1; Efésios 5:25-27). Que, ao participarmos deste santo memorial (Lucas 22:19-20; 1 Coríntios 11:23-26), possamos entender que a maneira como Cristo nos trata é da mesma forma que Ele espera que tratemos nosso semelhante (João 13:14-15,34-35): não com indiferença (1 João 3:17), nem rancor (Efésios 4:31-32), nem ira (Tiago 1:19-20), nem contenda (Filipenses 2:3), mas com um coração disposto a fazer o bem (Gálatas 6:10) e a amar sem parcialidade (Tiago 2:1,8-9).
Nesta mesa, não há ninguém melhor nem maior que o outro (Lucas 22:24-27; Romanos 12:3,16). Nessa mesa, somos todos iguais (Gálatas 3:28; Tiago 2:1-4), porque quem se reconhece alcançado pela graça (Efésios 2:8-9) não deveria tratar o outro como se ele precisasse merecer a dignidade que Cristo nos ensinou a conceder (Mateus 7:12; João 13:34-35).
A verdadeira comunhão com Cristo não se evidencia apenas no lugar que ocupamos à mesa, mas na maneira como tratamos aqueles que se assentam conosco (1 João 4:20-21; João 13:14-15).
